No
ano de 1972, o bloco Saci Pererê nasceu como um grito de resistência ao regime
que impunha a força do chumbo sobre a cabeça dos brasileiros. Pobre povo, que
era tão livre e teve que se curvar diante do poder dos coturnos... Mas não o
Pererê, que ousou nascer cantando a liberdade e mostrando que no poder da
carapuça estava a verdadeira arte de viver. Quando o Pererê saiu às ruas pela
primeira vez, com seus foliões vestidos de sarongues coloridos, com os rostos
pintados como os Secos & Molhados e protegidos por um círculo de cordas, as
palavras de ordem eram a liberdade e a alegria. Mais do que a Banda – o mais
antigo bloco de sujos de Macapá – naquele primeiro dia o Pererê já arrebatou
corações e foi seguido por estudantes, artistas e intelectuais de famílias
tradicionais da capital do Estado, gente que conhecia os perigos de se mostrar
avesso à política que dominava o país.
Mas
a resistência ao regime não era a única inspiração do Pererê. A mola propulsora de sua energia era o movimento
tropicalista, surgido sob a influência das correntes artísticas de vanguarda e
da cultura pop brasileira e estrangeira, e que misturou manifestações
tradicionais da cultura brasileira a outras estéticas. A Tropicália foi
decisiva na mudança de comportamento pelo país afora no início dos anos 1970. O
movimento teve manifestações artísticas diversas, na música, nas artes
plásticas, no cinema e no teatro. Era mais uma voz que se erguia contra o
regime militar.
Se
hoje o bloco Saci Pererê, em cujo batistério consta a graça de Associação
Recreativa Carnavalesca Bloco Saci Pererê, canta o Carnaval da Tropicália do
Pererê 40 anos, é porque, segundo o compositor Aroldo Pedrosa “não existe no Brasil ninguém mais tropicalista do que
nós, macapaenses, que nascemos sobre a Linha do Equador. Ou seja, neste ponto
equidistante entre o trópico de Capricórnio e o trópico de Câncer.”
Nestas
quatro décadas de existência o bloco conservou suas raízes tropicalistas e fez
história com enredos polêmicos como a CPI do Pererê e participação de ilustres
filhos da terra, como João Henrique, Sidney Peixinho, Fernando Canto, Sidou e Chico Miccione, Gúdi e Beto Lacerda, Haroldo Cabral, Marcelo Dias e Zoth Cavalcante, entre outros. Embora tenha ficado afastado do carnaval por
cerca de 20 anos, o bloco Pererê jamais se afastou do coração de seus foliões,
que agora resgatam sua história e sua disposição de brincar o carnaval no
melhor estilo dos blocos de rua.
A
questão fundamental é que neste momento em que o Pererê completa 40 anos e
reverencia a Tropicália, ele se reinventa, pensa através dos meandros da
alegria, tem maturidade de quarentão e energia de Peter Pan, é tão moderno que
já tem blog e facebook, já descobriu os benefícios da troca da quantidade pela
qualidade e deixou de ser folclore para ser um portador da arte de ser feliz
nas ruas serpentinadas do carnaval de Macapá.
Abram
alas que aí vem a intrépida trupe do Saci Pererê, este ser de prosopopéias,
lúdico, transcendental, vestido de parangolé!
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