sábado, 14 de janeiro de 2012

ABRAM ALAS PRO PERERÊ DA TROPICÁLIA

“E assim se passaram 40 anos...” e o Pererê, bloco carnavalesco nascido com a missão de espalhar alegria, está com cara de dois garotões de 20! E se tivessem se passado 80? O Pererê é tão gaiato, que era capaz de aparentar ser dois quarentões muito sarados, sem risco coronário, que ainda come pipoca doce e anda na roda gigante, e tem experiência suficiente pra investir no marketing pessoal. Pois o Pererê é quarentão, e não venha ninguém dizer que a juventude se foi, pois um quarentão hoje em dia tem passe de alto valor no mercado. Como se não bastasse o Pererê ser bonitão e ter poderes até na carapuça, ainda é do signo da Tropicália! Quando nasceu, não era um anjo torto, mas sempre foi gauche na vida, um tipo que perdeu a perna jogando capoeira, mas que vive longe de confusão. Que inspirou canção de Villa-Lobos e que passeia pela literatura, pelo cinema e pela televisão. Falando sério: como é que alguém vai perder a perna jogando capoeira? Só mesmo sendo o Saci Pererê. 
No ano de 1972, o bloco Saci Pererê nasceu como um grito de resistência ao regime que impunha a força do chumbo sobre a cabeça dos brasileiros. Pobre povo, que era tão livre e teve que se curvar diante do poder dos coturnos... Mas não o Pererê, que ousou nascer cantando a liberdade e mostrando que no poder da carapuça estava a verdadeira arte de viver. Quando o Pererê saiu às ruas pela primeira vez, com seus foliões vestidos de sarongues coloridos, com os rostos pintados como os Secos & Molhados e protegidos por um círculo de cordas, as palavras de ordem eram a liberdade e a alegria. Mais do que a Banda – o mais antigo bloco de sujos de Macapá – naquele primeiro dia o Pererê já arrebatou corações e foi seguido por estudantes, artistas e intelectuais de famílias tradicionais da capital do Estado, gente que conhecia os perigos de se mostrar avesso à política que dominava o país. 
Mas a resistência ao regime não era a única inspiração do Pererê. A mola propulsora de sua energia era o movimento tropicalista, surgido sob a influência das correntes artísticas de vanguarda e da cultura pop brasileira e estrangeira, e que misturou manifestações tradicionais da cultura brasileira a outras estéticas. A Tropicália foi decisiva na mudança de comportamento pelo país afora no início dos anos 1970. O movimento teve manifestações artísticas diversas, na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro. Era mais uma voz que se erguia contra o regime militar.
Nada foi capaz também de calar o grito do Saci Pererê, “que ele livre-solto é mais que demais bonito”. E naqueles tempos de dura clandestinidade e doce tropicalismo, o bloco começou a ser chamado para animar bailes de carnaval de salão. Era uma época em que os salões do Círculo Militar, da Assembleia Amapaense, do Esporte Clube Macapá e do Santana Esporte Clube reuniam a nata da sociedade em festas que ficaram para a história do carnaval amapaense. 
Se hoje o bloco Saci Pererê, em cujo batistério consta a graça de Associação Recreativa Carnavalesca Bloco Saci Pererê, canta o Carnaval da Tropicália do Pererê 40 anos, é porque, segundo o compositor Aroldo Pedrosa “não existe no Brasil ninguém mais tropicalista do que nós, macapaenses, que nascemos sobre a Linha do Equador. Ou seja, neste ponto equidistante entre o trópico de Capricórnio e o trópico de Câncer.” 
Nestas quatro décadas de existência o bloco conservou suas raízes tropicalistas e fez história com enredos polêmicos como a CPI do Pererê e participação de ilustres filhos da terra, como João Henrique, Sidney Peixinho, Fernando Canto, Sidou e Chico Miccione, Gúdi e Beto Lacerda, Haroldo Cabral, Marcelo Dias e Zoth Cavalcante, entre outros. Embora tenha ficado afastado do carnaval por cerca de 20 anos, o bloco Pererê jamais se afastou do coração de seus foliões, que agora resgatam sua história e sua disposição de brincar o carnaval no melhor estilo dos blocos de rua.
A questão fundamental é que neste momento em que o Pererê completa 40 anos e reverencia a Tropicália, ele se reinventa, pensa através dos meandros da alegria, tem maturidade de quarentão e energia de Peter Pan, é tão moderno que já tem blog e facebook, já descobriu os benefícios da troca da quantidade pela qualidade e deixou de ser folclore para ser um portador da arte de ser feliz nas ruas serpentinadas do carnaval de Macapá. 
Abram alas que aí vem a intrépida trupe do Saci Pererê, este ser de prosopopéias, lúdico, transcendental, vestido de parangolé!

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